A varíola dos macacos e a mensagem da Cabalá

Assim como a pandemia do coronavírus gerou uma mudança estrutural nas sociedades globais – privando a humanidade do contato com familiares, etc –, o novo alerta do Dr. Tedros da OMS (Organização Mundial da Saúde) sugere mudanças ainda mais profundas no comportamento humano, a ponto de ter sido recomendado que de um modo geral as pessoas evitem a promiscuidade, desencorajando o sexo com desconhecidos. Parece ser uma ironia do destino que a própria OMS traga esta informação controversa, pois não se trata de algo dogmático e nem imposto por religiosos, mas uma recomendação com base científica. 

Então, o que a Cabalá tem a nos dizer sobre a varíola dos macacos?  Qual é a mensagem para a humanidade? É isso que o rabino cabalista Yair Alon procura responder neste artigo exclusivo. Confira!

Artigo por Yair Alon

A varíola dos macacos e a mensagem da Cabalá

Mais do que uma crise de imunidade, cenários como estes apontam para uma crise de humanidade. Temos espalhado amor e companheirismo ou ódio e intolerância?

Mal terminamos de lidar com um vírus, outro já surgiu: o da varíola dos macacos. Na verdade, ele já é um velho conhecido da humanidade (pelo menos desde 1970), mas enquanto antes ele era endêmico (apenas em regiões da África); agora reapareceu – como tudo que é moderno – de forma global.

Foi-se a época em que eventos ocorriam isoladamente e afetavam regiões específicas do planeta. Como já disse o Baal Hasulam, em seu livro “A Paz”: “hoje o mundo é um sistema totalmente (inter)conectado, de modo que tudo o que fazemos, dizemos ou pensamos afeta todo o globo terrestre”.

Confesso ter certo receio dessas doenças com nomes de animais: vaca louca, gripe suína, varíola do macaco. Do jeito que o ser humano é, ele logo pressupõe que a culpa é dos bichos, e que eles devem ser eliminados. Mas nada mais longe da verdade. A culpa é nossa, e exclusivamente nossa.

Segundo a Cabalá, vertente mística do judaísmo, a Natureza é uma das ferramentas que o Criador usa para reger o mundo. Na verdade, segundo nos lembra o comentarista bíblico Baal Haturim, um dos próprios nomes de D´us (Elohim) possui o valor numérico da palavra hebraica para Natureza (Teva), indicando que a própria Natureza é uma faceta de Deus ou uma das expressões do Divino.

Não espanta que poucas coisas sejam mais poderosas do que a Natureza. A pergunta que surge em momentos de doenças como essa é: o que a Natureza quer de nós? Por que D´us está usando os meios naturais para enviar doenças à humanidade? Ele está punindo a humanidade com esse tipo de aflição, de modo similar ao que talvez fez no Egito, enviando sarna aos algozes do Povo de Israel?

O fato de as pessoas estarem se perguntando isso é, na verdade, um ótimo sinal e, em si mesmo, parte do plano, por assim dizer.

É dos projetos e interesses da Natureza fazer com que os seres humanos analisem sua vida, pensem sobre seus atos e, quando necessário, os adaptem para um melhor viver. Idealmente, essas mudanças deveriam ocorrer de forma suave e prazerosa; mas, infelizmente, às vezes o melhor modo de fazer isso é dando “golpes”. Como já ensinou Maimônides: pelo amor, ou pela dor.

O primeiro passo para uma real análise de um problema (seja ele qual for) é identificar qual é a nossa parcela de culpa nele e qual é a nossa responsabilidade frente ao que está ocorrendo. Sem apontar dedos, sem transferir a culpa, sem achar bodes expiatórios (pobres dos bodes).

Podemos talvez nos perguntar especificamente por que a Natureza tem usado de vírus que se transmite por contato? Por que estamos vendo doenças que surgem e pedem o nosso isolamento, impedindo-nos de nos relacionarmos com os outros da forma como sempre fizemos?

Talvez porque justamente a forma como sempre nos relacionamos está insalubre. Como andam as nossas relações sociais e interações pessoais? Por acaso já não vivemos uma espécie de alienação uns dos outros com as novas formas de se relacionar oferecidas pela tecnologia? Se assim for, talvez esses vírus sejam apenas uma materialização real do que já ocorre no mundo virtual há alguns anos.

Em outro sentido, quando nos aproximamos do outro, qual tem sido a tendência das nossas relações? Temos espalhado amor e companheirismo ou ódio e intolerância? Se for para espalhar este último, talvez isso contrarie os planos da Natureza; e – nada mais natural – que ela prefira nos incutir o medo de se aproximar do meu próximo.

A tradição judaica conta que o único motivo pelo qual o Templo de Jerusalém foi destruído é que havia ódio gratuito entre as pessoas. A lição é clara: o ódio infundado entre as pessoas destrói o meu ambiente, faz com que ruam as bases da minha espiritualidade (o Templo).

Falando em medo… Por que doenças causadas por vírus, seres invisíveis e de tamanho insignificante? Uma tentativa de ensinar que o inimigo pode ser oculto aos olhos e que tamanho não é documento? Uma tentativa de desinflar o ego e a soberba humanas? Talvez.

Fato é que uma vez que o ser humano se encontra disfuncional (consigo mesmo e na relação com o próximo), todos os níveis da Criação sofrem dessa negatividade, já que tudo é conectado.

Para o Talmud (Eruvin 13b), o ser humano é o auge da Criação, de modo que quando ele padece, em seguida, padecem e são afetados todos os animais, as plantas, os minerais e o ecossistema como um todo. Todos os níveis da Natureza passam a ser disfuncionais, o que promove – entre outras coisas – o surgimento de novas doenças e também todos os tipos de desastres naturais.

Tudo isso nada mais é do que reflexo da nossa própria atitude negativa. Nessa perspectiva, o que causa furacões não são os ventos tempestuosos na atmosfera, mas a intempestividade de espírito que gera conflitos no mundo; o que causa terremotos não as movimentações e choque das placas tectônicas, mas agitações e colisões nas mentes humanas, que impedem que se encontre uma base firme onde viver.

Mais do que uma crise de imunidade, essas doenças estão apontando para uma crise de humanidade.Quanto antes formos capazes de perceber isso e entendermos a lição que a Natureza está querendo nos ensinar, antes sanaremos o cosmos: micro e macro.

Sobre Yair Alon 

Nascido em Jerusalém, Israel, chegou ao Brasil aos cinco anos em 1990, quando eclodiu a Guerra do Golfo no Oriente Médio. Formou-se em linguística e possui mestrado em Língua, Literatura e Cultura Hebraica pela Universidade de São Paulo. Estudioso da Cabalá desde os 13 anos teve acesso a centenas de livros cabalísticos. Aprendeu esta ciência e começou a empregá-la em suas aulas, palestras, atendimentos e grupos de estudo. Se formou rabino e se dedica a traduzir e comentar textos cabalísticos clássicos para ajudar, com este conhecimento milenar, o maior número de pessoas possível. 

Nessa área de atuação já traduziu livros do Rabi Shimon bar Iochai, Chaim Vital, Moshe Cordovero e Isaac Luria. Escreveu e publicou a Trilogia de Cabalá Prática (Composta pelos livros: Espada de Moisés, Livro de Raziel e Livro dos Segredos), além de outros livros como: “Almas Gêmeas e Cabalá” e “Felicidade e Cabalá”.

Saiba mais:

https://www.yairalon.com.br/
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