Marcas do holocausto: sequelas na família de sobreviventes de Auschwitz

Certo dia em um evento de intercâmbio cultural em Israel, conheci um jovem judeu, descendente de sobreviventes do holocausto, que por coincidência é o tema da minha pesquisa. Marcamos então uma longa entrevista para o final de um shabat. 

Lembro como se fosse hoje, quando subi as escadas para chegar ao seu apartamento em Tel Aviv. As portas se abriram, e fui recepcionada pelo jovem ruivo com um cachorrinho fofo nos braços, que inclusive tremia de medo ao perceber a presença de alguém estranho; então perguntei se eu poderia pegá-lo no colo e Ariel adverte com certo receio: 

“É melhor esperar um pouco, ele vai te procurar…”
E realmente ele foi um parceiro fundamental nessa nossa jornada, e nos ajudou a deixar a entrevista um pouco mais leve, esteve conosco o tempo todo nos braços de Ariel, que parecia um anjo com os seus olhos azuis e doces, porém, firmes como os de um leão, tal como o seu nome significa, “Ariel: Leão de Deus”.

Fazia muito frio na varanda do apartamento em Israel, porém, muito mais gélidas seriam as palavras que eu ouviria nas próximas 3 horas sobre as atrocidades que aconteceram no centro de concentração em Auschwitz. Confesso que engoli muitas palavras a seco, e segurei o choro em diversos momentos da entrevista. 

Começo então por checar datas, nomes e assistir um pequeno trecho de um depoimento do avô de Ariel. Mas o foco da entrevista não eram os relatos em si, que inclusive estão muito bem documentados no museu Yad Vashem em Israel, mas sim saber as possíveis sequelas do holocausto na vida e família dele.

Para Ariel a percepção sobre o holocausto mudou ao longo dos anos, ele conta, por exemplo, que: 

“Quando era criança não simpatizava com a bandeira da Alemanha e sempre que tinha jogo torcia para que o time alemão perdesse. Mas hoje já superei isso!”, afirma.

Desde criança ele sempre quis saber como tinham sido os acontecimentos nos campos de concentração e por isso perguntava os detalhes para o seu avô. Com o amadurecimento da fase adulta ele conseguiu ressignificar – apesar de não esquecer e não perdoar – ele consegue conviver com a memória do holocausto e o legado histórico que o fato trouxe para a sua família. 

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Ariel conta inclusive sobre um episódio interessante que se passou durante uma viagem por Chicago nos EUA, em que ele como neto de sobrevivente, conversou pacificamente sobre o holocausto com um alemão neto de um oficial nazista.

Ao ser questionado como o holocausto afetou sua vida e família, ele conta que existem alguns indícios, mas que não consegue assegurar o que de fato veio como consequência do genocídio, porém, confirma alguns problemas de saúde em família.

Ele relata, por exemplo, alguns comportamentos que provavelmente estão diretamente ligados a memória do holocausto, como por exemplo: o fato de alguns membros de sua família terem medo de cachorros. (Isso porque nos campos de concentração tinham cachorros rondando a área junto com os oficiais nazistas).

Outra questão é que seu avô não tinha muito claro o conceito familiar porque quase toda a sua família foi destruída no holocausto, então ele tinha certa dificuldade com vínculos afetivos, e isso o tornou um homem muito forte e rígido.

Quando a mãe de Ariel, por exemplo, tinha que tomar alguma decisão complicada, o seu avô questionava se àquilo era caso de vida ou morte; porque considerava que muitas questões da vida não eram problemas reais, tendo em vista o horror que ele passou no campo de concentração.

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As vezes quando Ariel reclamava de fome, por exemplo, ele ria e dizia: “Você não tem fome, você quer comer… É diferente!”.

Seu avô era o “88776”, número que foi tatuado no seu antebraço esquerdo, e que ele não fazia questão nenhuma de esconder. Já a sua avó paterna escondia, e não gostava de falar sobre a experiência traumática do holocausto. No entanto, sabe-se que ela foi muito forte e corajosa no campo de concentração. Uma amiga dela, também sobrevivente, relata que sua avó chegou inclusive a arriscar a sua própria vida, em uma luta com um oficial nazista para proteger e salvar outra prisioneira.

E dentre os fatores somados que de alguma forma podem ter contribuído para a sobrevivência, em especial do seu avô, estão o fato dele ser jovem, forte e inteligente. Os fracos e doentes iam logo para a seleção e consequentemente para a fila da morte e a câmara de gás. Mas isso não era bem uma regra, porque a avó dele, por exemplo, tinha a saúde um pouco mais debilitada e também conseguiu sobreviver, ou seja, não havia uma fórmula certa, porém, existem algumas questões que podem ter ajudado de alguma maneira:

“Meu avô teve muita sorte em vários momentos, como por exemplo, nas vezes em que por intuição mudava sua posição na fila e conseguia fugir da seleção e da fila da morte. Ou mesmo em um episódio interessante em que ao ser questionado por um oficial se ele tinha alguma profissão e ele disse: “carpinteiro” e assim conseguiu provar a sua utilidade no campo de concentração, escampando, portanto, das temidas seleções e da morte na câmara de gás”, explica Ariel.

Sobre os avós sobreviventes de Ariel: O avô materno foi Jacobo Bandrymer Zimnowicz, nasceu na região de Szniadobo na Polônia em 16/09/1926, foi prisioneiro em Auschwitz do dia 17/01/1943 à 17/01/1945. Chegou ao campo de concentração com o seu pai, sua mãe, seus irmãos gêmeos, que ainda eram crianças e o seu tio, que também chegou a sobreviver ao holocausto). Faleceu em 12/04/2002.

Já a avó paterna, Bassia Pass Wilner, nasceu em 04/08/1924, na região de Cracóvia na Polônia, trabalhou em campo de trabalho forçado para mulheres em Plaszow e também em Auschwitz. Faleceu em 26/07/1996.

Ariel Litmanowicz, 34 anos, nasceu em Montevidéu, capital do Uruguai, e é economista. Chegou a atuar como voluntário em uma espécie de “Museu do Holocausto” em Montevidéu no Uruguai chamado: “Proyecto Shoá, Memória y Legado del Holocausto” (uma mostra/exposição temporária). Atualmente mora e trabalha em Israel. 

Ao final da entrevista Ariel chegou a compartilhar que como sempre esteve muito conectado com este tema do holocausto, de vez em quando tem pesadelos. Apesar disso, possui uma atitude bastante positiva diante da vida e rejeita posicionamentos extremistas. Não demonstra vitimismo e nem ressentimento. E reflete bem o que diz um pensamento filosófico:

“Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você!” Jean Paul Sartre.

O psicoterapeuta também sobrevivente do holocausto, Viktor Frankl, em seu livro: “O homem em busca de um sentido” reproduz com propriedade o pensamento de Friedrich Nietzsche: “Aquele que tem um porque para viver, pode enfrentar quase todos os comos”.

Ariel não acredita que a vida precise necessariamente de um sentido de existência: “Mesmo que você não tenha um sentido para a vida, pode continuar vivendo”.

Mas concorda com o pensamento de Anne Frank quando ela demonstra esperança no ser humano mesmo em situações adversas: “Apesar de tudo ainda acredito na bondade humana!” Anne Frank

Ariel então finaliza: “A vida é feita de coisas boas e coisas ruins. É preciso ter esperança!” 

Sobrevivente
Ao centro da foto Ariel Litmanowicz no dia do seu Bar Mitsvá aos 13 anos. Atrás dele estão os avós sobreviventes do Holocausto. De branco o avô materno, o senhor Jacobo Bandrymer Zimnowicz, e de vermelho a sua avó paterna, senhora Bassia Pass Wilner.
Sobrevivente
Jacobo Bandrymer Zimnowicz (judeu sobrevivente do holocausto com a tatuagem)

Fernanda Thomaz

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